quinta-feira, 21 de julho de 2022

 Um longo poema

cheio de palavras que terminam

um longo poema é feito de versos sutis que encaminham as cabeças por um labirinto erguido com paredes transparentes

tem partes/blocos/capítulos/estrofes tudo num céu amarelado em fonte Garamond

é feito de batalhas perdidas e dias recusados

os verbos presentes são vazios, que inflam um balão até tocar a ponta da agulha do outro lado da sala

cada pronome é íntimo, uma geografia do corpo traduzido em gramática

e tem a pólvora, que amarra toda a inspiração com faíscas, emoldurando o poema nos enquadramentos das páginas possíveis

o longo poema é uma coleção de palavras, um dicionário desmontado e reorganizado por ordem do afeto

...

terça-feira, 12 de julho de 2022

 A macróbia cidade

sentada no assento laranja do metrô/

o nosso metropolitano

se desfaz/

subsolos e mais subsolos

aquela ideia de esquecimento

a sensação da falta

confiro os bolsos e verifico os trincos

acerto o nariz em volta dos óculos

acerto o troco da xerox

pesquiso os efeitos da acetilcisteína

que me deixa expectorar cada pequena lembrança

 96 degrees In the shade

e quanta sombra até formar uma noite densa

estação terminal

desembarque é obrigatório.

quarta-feira, 6 de julho de 2022

 Na nebulosa que atravessa o consultório do dentista

ali pensamento se cria

só forma

linguagem do vão

entres as colunas do sonho e as paredes celulares

o jogo

é ser suor

fracasso na lama

que merece existir.

além disso precisamos sempre do indefinível que permeia as horas que escapam pelas estreitas formas fixas do relógio.

primeira parte do todo