terça-feira, 23 de março de 2021

 Uma ode aos avessos

pequenos tropeços nos dias claros.

Um canto aos difusos

que partem os espelhos e rompem

simplesmente rompem

enquanto esperam.

De todos os cantos, os pertos dos muros são melhores, na margem da sombra rala

raspando o braço no chapiscado que rodeia a realidade.

Escorre pelo canto da boca, uma pequena dose de violência com um amargo perdão na língua, engulo.

Na curva arde o sol de cemitério, os corpos em esfinges e também retratos ovais em molduras douradas com início e fim e só. Passando o cemitério tem a cidade dos vivos que mandam flores e rezam.

Alguns dançam nas obras inacabadas inventando músicas para suportarem o peso do céu, os vivos são assim, ainda que ossos em movimento produzem também palavras, e isso faz toda a diferença.

sábado, 13 de março de 2021

 Em  pedras um grito

 estradas  na cabeça

como forma de desvio

das barbaridades

 um pé depois do outro

e na calçada

 as rodas girando

 no restaurante

um jantar com entrada e sobremesa

 um pássaro no bolso da jaqueta para todos esses momentos onde só nos resta

voar.

sábado, 6 de março de 2021

 Na chuva se fez o incêndio 

nas tripas do poste exposto

fumaça, faísca, dança luminosa na espuma radiante

os cidadãos acionam o corpo

de bombeiros.

A luz falta

fica a memória do fogo iluminando os paredões de concreto

refletido.

A água escorre lisa pelo pavimento

a fumaça cada vez mais branca

sobe em pequenos blocos macios.

Os vizinhos em suas sacadas admiram a beleza do pequeno caos chamuscado.

No horizonte muitos pontos luminosos enjanelam a paisagem.

agora também o cheiro da borracha queimada dispersa a poesia lúcida do fogo em pequenas frestas que não se deixam calar.

assim termina o sábado no subúrbio.

primeira parte do todo