sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Garagem

 Os tijolos em geometria 

erguendo o prédio

essa agonia

essa vertente

corta seco

cabisbaixo 

padeço

desse viver

de andar em andar

engenharia que desaba

ilusão do subsolo

mergulhado no cinza carbônico 

onde os corpos se esbarram nas madrugadas e manhãs dos dias úteis

estaciono


sexta-feira, 3 de setembro de 2021

 O futuro fracassou

e nossas mão atadas 

puxando até o talo

o freio de mão da História.

O futuro fracassa, os pássaros ainda cantam na noite

Só nos resta o flâneur desesperado com o preço do café/

a gota mágica que se pinga nos olhos e anestesia o corpo/

Embalsamados, os sonhos nas vitrines /

Fragmentos de brilho, aqui e ali, onde a lama não tocou

antes fosse lama]

e não ódio.

terça-feira, 17 de agosto de 2021

Da terra nascem os homens

Toda segunda-feira pela manhã toca Easy

like sunday morning

na Rádio FM

enquanto articulações expostas se alongam

junto com a fila da Caixa Econômica 

e as buzinas covardes da Radial Oeste

que

transformam a dor em sublime,

existe ainda a carne viva nas praças e uma nova edição do Morro dos ventos uivantes nas prateleiras das livrarias que ainda não fecharam

o café é pólvora na boca

engasgando os sufocos nos azulejos azuis dessa padaria.

Vestimos as roupas e os dias todas as horas no bolso vazio, apagamos os estragos com soluções inesperadas

arrancamos nossos carros nessas esquinas e chegamos primeiro no sinal vermelho.

terça-feira, 10 de agosto de 2021

4G

Pega fogo, na cobertura do prédio vizinho

não vejo bem

só fumaça e silêncio.

Todos os mutilados felizes se arremessam do pier

contra as pedras

a favor do mar.

No trem também, ondas vazias se revoltam

trilhos acessos até onde a juventude se torna mortal.

Nessa vida épica 

só haikai

odisseia imóvel nos olhos do herói

entre os olhos do herói

um buraco de bala

calibre 38

por um celular Samsung Galaxy

A32

128gb

violeta

4G

domingo, 1 de agosto de 2021

 Outro

nos ombros do gigante/respirou fundo antes do salto(como aquele que mastiga vidro misturado na salada)

o mesmo

nas terras distantes da memória/assoprou a poeira(como aquele que arrasta as botas no tapete da entrada da casa)

Os ombros distantes em marcha pelos corredores, assim velozes como quem não quer ser visto, não passou pela cabeça que os olhos tem fome e precisam das imagens para a decoração do salão de entrada.

Colecionava assim pedaços vistos por aí, muitos deles coloridos com fundo branco, colocava por cima da colcha vermelha e pensava na liberdade dos pássaros, nunca dos peixes.

para todos os incêndios o fogo é a única solução

escombros dentro da cabeça

Coliseu sem Nero.

Os peixes nunca serão livres, pois os mares e rios tem bordas

o céu não.

quinta-feira, 8 de julho de 2021

Diário I

 Aos avessos trocados, os dias santos em vão, a parte que toca o todo\\ lembro

a outra face, lendo esse pesado volume essa hora já estavam mastigando os privilégios\\ cacos e moedas

aqui colidem no balanço do corpo\\ remédios precisos engulo deixo para depois, sem a senha do banco  3 letras que esqueci ou nunca soube, engasgo a fila e em looping sigo os comandos que se repetem querendo saber 3 letras que não sei\\ sem dinheiro\vivo\vem o segurança me esvaziar do caixa eletrônico

é véspera\feriado\fim de mês\ os jornais ainda tentam falar comigo, suspenso no intervalo do almoço\parto

executo\\ a nuvem acumula todas as vestes do dia\ tento o núcleo ou um novo corte de cabelo\\ expurgo os ódios num rabisco 9b apontado com lâmina de estilete cego, o poeta António Dacosta nasceu em Angra do Heroísmo\ a cal dos dias decompostos acidifica o solo daqui, de onde parto\\ o poeta António Dacosta escreveu:

"  a águia do Vaticano

 Sobrevoa a minha cabeça

 Enche-me da sua graça 

 Dessas estamos à espera..."

Apito alarme desmembro o Casio no pulso direito\\ transversal também engarrafada, somo o troco com o valor das coisas sem dimensão\\tranco sinal vermelho, olho sem tocar na paisagem\\ declina a cadeira e pestaneja 

que assim seja.

quarta-feira, 9 de junho de 2021

 Navio

horizonte entre a queda e o vôo

assim logo no café da manhã

formigas tomam conta da escrivaninha

como distopia do Cortázar.

Também tem a praia e com ela todo o vento que cabe nos cabelos

horizonte entre o naufrágio e a superfície

formigas morrem com o peso do polegar

na manhã o café se acumula na cavidade bucal

depois da rima e antes da orofaringe.

No meio disso tudo o mar

o açucareiro é colocado em um prato com água

como Rei Arthur protegia seus castelos

fosso é o mesmo que cova e as formigas não sabem nadar.

primeira parte do todo