quinta-feira, 21 de setembro de 2023

 Todavia compunha as horas com ruídos

coleção de cada  som

arriscava a vida ao descascar inhame

com faca de fio afiado

guardava as coisas nos lugares

e os lugares guardava dentro da pedra

dentro do bolso

dentro da palma da mão esquerda

ali forjava cada pequeno delíro

que alimentava.


Já os ruídos eram apenas fragmentos colhidos no ar

num virar de cabeça

olhar distante a poça

e ver buraco

um zumbido seguido de silêncio

inventar ali sinfonia.


a faca 

o som

a febre

tudo vai na pedra.


A escola da pedra não é a escola da faca

é sim

oca e sem brilho

mas resiste

até a água furar.


quarta-feira, 16 de agosto de 2023

 Ainda sem perceber

que Marte gira mais rápido

engarrafamento

no meio do bairro

um pedaço de terra

escavam ali o edifício

inventam palavra 

inventam a morte

dentro aqui

a Nasa ainda não sabe ao certo 

mas Marte gira mais rápido

cada vez mais

o edifício sobe no buraco

o bairro abraça os muros

o inimaginável

coberturas duplex lineares

o andares sobem mais alto

e o piano não cabe no elevador.

terça-feira, 11 de abril de 2023

 acompanhar 

mesmo que de longe

o pulso fraco das horas

quentes

lavar os dias

com sabão

em uma bacia

ou tanque

na área de serviço.

o desaparecimento dos corpos

nesse horizonte erguido

síndrome do futuro

deixar a violência domar a narrativa

de roupa vermelha no meio da mata

recitando trechos de um poema roubado

a fumaça também é vazia

como é vazio um canto que se acaba

deixa só o eco.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

 A comida mantém a família feliz

ambrosia

as casas vestidas com os trajes riscados de giz

na caixa de sapatos cartões postais contam os passos

as quedas se acumulam no corredor

tem um vulcão

desenhado na parede

deitam no sofá

observam

café

deu no rádio qualquer coisa

de absurda 

abre janela

fecha janela

é tarde

no violão faltam duas cordas

na cristaleira/

um abismo

no quintal é sempre domingo

na pouca sombra do limoeiro

circulador de ar

velocidade três


a tarde se desfaz


quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

rap/end

 Um livro com capa bonita pendurado na estante junto com os dias que me sento e ouço.

paranoid

a sede aplaca a fúria sobre a seca do desconhecido que cicatriza pelas vísceras desses corpos encolhidos na tarde

mais simples é tomar o sol, simplesmente como um trunfo e não infortúnio dos desabrigados

atrás das pulgas as orelhas saltam os urros, gritos e janelas que carregam o fim do mundo

o editor não viu isso, deixou passar, assim, como quem mastiga o milho não-pipoca

gruda tudo no céu

da boca

tem tudo uma resposta

fugas das vias

de fatos

construção

destroço

caroço estranho no pescoço

que pulsa

como quem diz

final feliz.

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

 Ainda sobre os mortos

Hiroshima outras metáforas

a bomba já não faz efeito.

Uma valsa que dançamos parados

com os olhos navegantes

depois de tantas gotas de antipsicóticos 

que fazem mais efeito que qualquer bomba

só que a explosão é inversa

Nu Hotel Sacada Janela Frio

A melancolia é esse incenso que invade e fica

a névoa.

Sempre temos o futuro para planejar 

derrubar os edifícios

roubar cones

incendiar portões

parar no posto de gasolina

e falar sobre os mortos.




terça-feira, 11 de outubro de 2022

4B

pisando nos minutos como quem mergulha]redenção

assim de braços dados com esferas ansiolíticas que arremesso em acrobacias para o tubo digestivo, assim também temos fome e vontade de voltar no tempo e também ter fome, a crua força dos braços erguidos até cansar, todos os choques na cabeça expulsando sentimentos invonlutários, perdi meu lápis preferido.

talvez fique melhor aqui


perdi meu lápis preferido.

primeira parte do todo