sexta-feira, 3 de novembro de 2023

 ainda nos outros caminhos disfarçar

atropelado no feriado

o asfalto é o céu

controlar as luzes e as emoções

interromper a perseguição

desfrutar da ilusão

a estupidez sempre na espreita, esperando um brecha para agir

quanto tempo calado

sobre a guerra escrevem os jornalistas

e morrem os leitores

publicam o puro suco

de sangue fresco

imagens fortes

marca de tiro na lataria

sobrevivem 

e ainda pensam em filhos


sábado, 7 de outubro de 2023

Olhar os atravessados,segurar o escarro no vão da língua
esperar as mercadorias chegarem e ver o que basta
deslocar cada pequeno futuro
fragmentar a felicidade em goles de susto
mais um caso clínico
o quadro é estável
até não ser mais
e depois voltar a ser de novo
despejar nessa conversa a noite
mesmo que seja tarde
ver a coloração do lusco-fusco
tomar as cores das coisas
carregar toda a ficção que os ombros podem suportar
isso que são as faltas
olhar o termômetro 
cuspir.

quinta-feira, 21 de setembro de 2023

 Todavia compunha as horas com ruídos

coleção de cada  som

arriscava a vida ao descascar inhame

com faca de fio afiado

guardava as coisas nos lugares

e os lugares guardava dentro da pedra

dentro do bolso

dentro da palma da mão esquerda

ali forjava cada pequeno delíro

que alimentava.


Já os ruídos eram apenas fragmentos colhidos no ar

num virar de cabeça

olhar distante a poça

e ver buraco

um zumbido seguido de silêncio

inventar ali sinfonia.


a faca 

o som

a febre

tudo vai na pedra.


A escola da pedra não é a escola da faca

é sim

oca e sem brilho

mas resiste

até a água furar.


quarta-feira, 16 de agosto de 2023

 Ainda sem perceber

que Marte gira mais rápido

engarrafamento

no meio do bairro

um pedaço de terra

escavam ali o edifício

inventam palavra 

inventam a morte

dentro aqui

a Nasa ainda não sabe ao certo 

mas Marte gira mais rápido

cada vez mais

o edifício sobe no buraco

o bairro abraça os muros

o inimaginável

coberturas duplex lineares

o andares sobem mais alto

e o piano não cabe no elevador.

terça-feira, 11 de abril de 2023

 acompanhar 

mesmo que de longe

o pulso fraco das horas

quentes

lavar os dias

com sabão

em uma bacia

ou tanque

na área de serviço.

o desaparecimento dos corpos

nesse horizonte erguido

síndrome do futuro

deixar a violência domar a narrativa

de roupa vermelha no meio da mata

recitando trechos de um poema roubado

a fumaça também é vazia

como é vazio um canto que se acaba

deixa só o eco.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

 A comida mantém a família feliz

ambrosia

as casas vestidas com os trajes riscados de giz

na caixa de sapatos cartões postais contam os passos

as quedas se acumulam no corredor

tem um vulcão

desenhado na parede

deitam no sofá

observam

café

deu no rádio qualquer coisa

de absurda 

abre janela

fecha janela

é tarde

no violão faltam duas cordas

na cristaleira/

um abismo

no quintal é sempre domingo

na pouca sombra do limoeiro

circulador de ar

velocidade três


a tarde se desfaz


quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

rap/end

 Um livro com capa bonita pendurado na estante junto com os dias que me sento e ouço.

paranoid

a sede aplaca a fúria sobre a seca do desconhecido que cicatriza pelas vísceras desses corpos encolhidos na tarde

mais simples é tomar o sol, simplesmente como um trunfo e não infortúnio dos desabrigados

atrás das pulgas as orelhas saltam os urros, gritos e janelas que carregam o fim do mundo

o editor não viu isso, deixou passar, assim, como quem mastiga o milho não-pipoca

gruda tudo no céu

da boca

tem tudo uma resposta

fugas das vias

de fatos

construção

destroço

caroço estranho no pescoço

que pulsa

como quem diz

final feliz.

primeira parte do todo