sábado, 24 de fevereiro de 2024

 A morte ama

sucumbir

uma possível teoria dos vulcões, calor e brilho

piscar, suor na nuca

descer do carro no acostamento

o primeiro gole da sede

tornar visível a trajetória

solo ígneo


"Cinza é toda teoria, mas verde é a árvore da vida, cinza é toda teoria que se fecha à razão e verde e toda teoria que liberta a razão". Johann Wolfgang Von Goethe

um amor sem segundo

se desmonta

nas sobras

das horas.

Ainda é possível ouvir os automóveis na rodovia

se acostumar ao magma que arrefece e amortece

girar esses transes no abrigo da sombra.

a morte ama

a espera.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

 A planta respira

o tempo vira

contra a parede

o ventilador amacia

o giro do motor

navega pelas constelações mecânicas

todos ponderam no final da discussão

deixamos a melancolia no batente da janela

fazer o café

esperar esfriar

requentar o café

queimar a língua

esperar a visita

visitar a espera.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

 Quanto tempo

para cozinhar um ovo

ainda é cedo 

e ferve

os azulejos relatam

os silêncios dos intervalos

rochas erguidas

o sol é dos cavalos na praça

os ovos festejam o fim

passar água por entre

escorrer.

Misturar o vermelho com essa fome

iludir as palavras no molhar da pia

outra ilha

desenhar a fumaça

que se arrisca

na luz.

Rompe a casca

invade o novo

com as pontas dos dedos.


quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

 por entre

seguir

anotar os pedaços

colar os recortes

nas paredes

compor assim uma canção

para suportar

o automóvel pegou fogo

na rua Rosa e Silva

mas ainda assim

a tarde seguiu seu rumo

recortar também essa chama

transparente no capô da Elba

colar junto

com o livro não encontrado

com o rádio que só pega 3 estações

e a cafeteira italiana

seguir

conferir as chaves no bolso

dominar os elefantes com as mãos

rasteia 

no fundo

uma imagem

que fica

colada ali

nas paredes do naufrágio.


sexta-feira, 3 de novembro de 2023

 ainda nos outros caminhos disfarçar

atropelado no feriado

o asfalto é o céu

controlar as luzes e as emoções

interromper a perseguição

desfrutar da ilusão

a estupidez sempre na espreita, esperando um brecha para agir

quanto tempo calado

sobre a guerra escrevem os jornalistas

e morrem os leitores

publicam o puro suco

de sangue fresco

imagens fortes

marca de tiro na lataria

sobrevivem 

e ainda pensam em filhos


sábado, 7 de outubro de 2023

Olhar os atravessados,segurar o escarro no vão da língua
esperar as mercadorias chegarem e ver o que basta
deslocar cada pequeno futuro
fragmentar a felicidade em goles de susto
mais um caso clínico
o quadro é estável
até não ser mais
e depois voltar a ser de novo
despejar nessa conversa a noite
mesmo que seja tarde
ver a coloração do lusco-fusco
tomar as cores das coisas
carregar toda a ficção que os ombros podem suportar
isso que são as faltas
olhar o termômetro 
cuspir.

quinta-feira, 21 de setembro de 2023

 Todavia compunha as horas com ruídos

coleção de cada  som

arriscava a vida ao descascar inhame

com faca de fio afiado

guardava as coisas nos lugares

e os lugares guardava dentro da pedra

dentro do bolso

dentro da palma da mão esquerda

ali forjava cada pequeno delíro

que alimentava.


Já os ruídos eram apenas fragmentos colhidos no ar

num virar de cabeça

olhar distante a poça

e ver buraco

um zumbido seguido de silêncio

inventar ali sinfonia.


a faca 

o som

a febre

tudo vai na pedra.


A escola da pedra não é a escola da faca

é sim

oca e sem brilho

mas resiste

até a água furar.


primeira parte do todo