Distante
as pernas acrobatas
quedam
ave
não existe tempo para visitar o museu de história natural
não existe o tempo
o tempo de fluir vai
quando começam a cair bombas
sobra o café frio, as coisas adiadas se acumulam nas estantes
não existe tempo para assistir o novo filme do Batman
não existe o tempo e tudo que não é vivo
é morrer aos poucos
é ficar na fila de espera sem um livro para ler
é perder o bloco de anotações espontâneas colecionadas no trasporte público
tomar café sem ouvir rádio
almoçar sem televisão
cagar sem jornal
fumar sem refletir
não existe tempo para ter
Um prego amarelo
na cena formada no canto
a baguete no centro da mesa
a toalha de rosto apoiada na quina
na sobra do dia
na hora que faltou
quando derrubaram o domingo na soleira da porta
ficou o suor e a mão parada no ar
foi quando o vizinho gritou e distraiu o gato sem nome
no telhado morno
foi o golpe final
no intervalo do jogo
cigarro na varanda
papeís carregados de pesos de pedra azul
uma doce conclusão sai de uma boca no bar
do outro lado da rua
Viva Ringo Starr!
Viva o poeta James Marshall Hendrix!
Por vezes caminhando
substância
Vozes e fotografias
o edifício vazio na capa do seu livro
um poeta inglês do século XVII.
Os cavalos já foram asas e agora são trilhos
são toques em botões sem rédeas
os pedaços já não formam
nada além de outros pedaços.
Progresso
represa de gesso que cerca nossa cidade.
Os mapas se moldam nos passos aflitos desenhando trajetos improvisados
corpo-pensamento
substância
é sobre isso
e tá tudo bem.
Os fósforos parados não acesos
toda a luz extinta
noite
também sólida
porém noite
ainda que dia de semana| começo de mês
particípios irregulares se acumulando nas bordas do apartamento
um pedaço de filosofia separa o vão do nada
seremos sempre os outros
que contam as histórias
Fiat Lux
Ficção
Paul Verlaine
comeu
Rimbaud duabmiR
ça marche
acendo
mais um
risco
artifício
Todos despertos no alívio
da tortura
na folga do carrasco
ar náufrago
o avesso da combustão
acesso
não queima
só arde.
No crânio ciborgue atravessado no corredor
lembrou o busto de Kafka em Praga
no sol
inventado
aqui e agora é sempre uma ficção científica
um tiro
escadas vazias do edifício
luzes
matéria e metal
vozes
animais inventados por toda a parte
cena de crime
navio mercante
no porto
longe das águas
fuga
um poeta português também embarca
viagem só de ida
na tripulação a polícia procura os inocentes
o horizonte se aproxima
o jantar é servido
os robôs contaminam a água
por isso se bebe leite
e suco de melancia
Chegamos no mesmo porto
o poeta retorna ao apartamento
e verifica se o ciborgue ainda não está vivo.