terça-feira, 24 de novembro de 2020

 Todos os corpos que carrego nas frases que deixo soltas por aí, num guichê de mercado ou numa mensagem trocada sem ânimo mas com afeto, todos os Nãos afundados em cada sim que soletro na cabeça antes de pronunciar e tudo bem respondo sem parar nas prateleiras da sociedade.

É tudo banal, mas também existe beleza no ordinário, no chiclete já mascado no canto da boca, por isso carrego esses corpos livres nas minhas frases soltas, assim depois que invadem os ouvidos corriqueiros e martelos e tímpanos ficam rendidos com esses intrusos que pela fresta do "bom dia" tornam o oco vazio em espaço imaginado, os corpos removem a massa cinzenta numa panificação de puro pensar.

São esses mesmos corpos que busco também nos olhares trocados e nos gestos contidos, até mesmo a cidade fala, canta, no apito do trem ligeiro e nas freadas bruscas, nos cavalos de aço rosnando pela madrugada, vejo ali tantos corpos não ditos, tantos gestos trocados em um único adeus.

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