segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

 Bem longe, na canção que morreu. 

Deito onda na pedra,

esculpo ali

com o peso do meu ar

um corpo qualquer de monumento dos fatos,

monumento dos verbos escorridos pelas calhas dessa chuva 

Um monumento não erguido, porém imerso.

Elegia ao subterrâneo que sustenta todas as cruzes da superfície.

Bem longe, na estação AM no vagão de trem, ouço tudo.

Deito trilho na terra,

e ergo ali outro monumento imerso.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

CrÔnIcA

 Ao mesmo tempo caminho dentro de uma crônica do suplemento do jornal de bairro, divago no cinza sujo da folha áspera de gramatura mais leve que esse ar carregado da Barão do Bom Retiro duas e vinte da tarde.

Desço um refrigerante pela garganta na cantina italiana de comida congelada onde eles colocam azeitona em tudo que podem tocar. Me preparo para seguir pela sombra que mesmo que pouca ainda sim é sombra, por onde estão meus iguais de tênis sujos e camisas suadas contando o dinheiro da passagem. Lembrei então do meteoro que vi em outubro, parece que foi ontem

Na janela do ônibus a vida é bela

Ciferal

Ciferal

Padron Cidade II

Ciferal

De Ramos para o mundo

Já estamos na Praça da Bandeira onde se perde um pouco de fé todos os dias, aqui os carros são criados sem cercas, já na uruguaiana fico livre para profanar os costumes sadios que tento manter nas segundas-feiras. Arremesso alguns olhares no horizonte de cabeças e vejo um conhecido na outra calçada mas consigo despistar o acaso.

Não sabia dessa pandemia, se soubesse me esbaldava nos cafés e comia duas Madrileñas na Manon perdia um dia ou dois nos sebos da Tiradentes, descia a Rio Branco e subia pelo Arco do Teles, Praça XV, CEP: 20010-010.

Ao mesmo tempo, mesmo.


quarta-feira, 25 de novembro de 2020

 Falo também do fracasso, principalmente do fracasso, dos corpos mal acabados passeando por bares, dos botes navegando na Baía de Guanabara buscando um mar que não existe, o fracasso vitorioso de não pertencer, o fracasso vitorioso de não ter poder de voto na reunião do condomínio, de pedir desconto no pagamento á vista, de poder estar dentro olhando de fora, rindo e chorando. 

Falo do fracasso dos corpos mal acabados estirados pelos bares, dos pequenos botes à deriva na Baía de Guanabara remando para sair da margem, passando por cima da ponte eu vejo, pelo banco do carona a gaivota. A motocicleta enguiçada, o caminhão rebocado, pela pista da direita vejo o bote solitário no imenso maior que qualquer possibilidade.

A margem pela margem, que acontece pelos cantos e belisca o pão com mordidas invisíveis que faz corpo presente nas filas por filas e por horas que não contam nos relógios ajustados. Esse fracasso sutil que mastiga o sorriso antes de cuspir atrás da cortina.

terça-feira, 24 de novembro de 2020

 Todos os corpos que carrego nas frases que deixo soltas por aí, num guichê de mercado ou numa mensagem trocada sem ânimo mas com afeto, todos os Nãos afundados em cada sim que soletro na cabeça antes de pronunciar e tudo bem respondo sem parar nas prateleiras da sociedade.

É tudo banal, mas também existe beleza no ordinário, no chiclete já mascado no canto da boca, por isso carrego esses corpos livres nas minhas frases soltas, assim depois que invadem os ouvidos corriqueiros e martelos e tímpanos ficam rendidos com esses intrusos que pela fresta do "bom dia" tornam o oco vazio em espaço imaginado, os corpos removem a massa cinzenta numa panificação de puro pensar.

São esses mesmos corpos que busco também nos olhares trocados e nos gestos contidos, até mesmo a cidade fala, canta, no apito do trem ligeiro e nas freadas bruscas, nos cavalos de aço rosnando pela madrugada, vejo ali tantos corpos não ditos, tantos gestos trocados em um único adeus.

domingo, 15 de novembro de 2020

 Atiro os dias no bolso da calça

e percorro os endereços.

Numa nuvem vi um desenho teu

um traço esfumaçado com a ponta dos dedos.

Tudo mergulha no olhos que imaginam

tantas presenças construindo esse vazio emoldurado,

me pergunto se as pessoas tem medo de morrer ou de viver?

essa indagação pode ter destruído o poema mas a arte de tomar decisões erradas agrega valor ao livre arbítrio. 

Arremesso alguns minutos para escolher entre o percurso e o descanso. Descanso.

A primeira coisa que perdi na pandemia foi um lápis atrás da cama

onde o braço não alcança, depois perdi um pouco do brilho, ganhei uns quilos e uns sonhos, perdi o medo e o ar, reflito olhando a sacada do prédio vizinho.

Recorto a cascavel na capa da revista e colo no jornal de pedaços do mundo que carrego junto com meu álbum de fotos. Meu mapa astral não vai nada bem, consulto o horóscopo chinês onde sou regido por mercúrio e meu dia de sorte é quinta-feira.

Agora sim, vou tirando do bolso os dias, um por um, e entre os dedos esmago as horas e deixo os instantes escorrerem pelas mãos.

sábado, 7 de novembro de 2020

A calma

 Uma maçã.

Palavra absorvida,

derrete por dentro da gente,

fazer poesia

é tomar coca-cola no gargalo.

É o sabor do trago do alcatrão

saciando a alma e matando o corpo.

Pelas ruas se debatem política e os preços dos automóveis, pessoas aguardam os parentes na rodoviária. A vida amansa os mais raivosos com pequenas pancadas no osso da nuca perto do sentimento torto colado no cerebelo.

Assim caminha.

Ainda sentimos fome e mesmo assim nos sentimos satisfeitos

com pouco.

Na janela desse apartamento aos poucos nos entortamos para caber, mesmo os mais raivosos fraquejam diante de tanta impossibilidade nos papéis assinados que chegam pelo correio.


Pedem calma.

Eles pedem calma.

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

 Futuro e os olhos fixos no terraço

espia, espia só

daí acontece

qualquer coisa, todos os dias

tem uma palavra em Tupi para isso.

No oco da casa

os pés descansam

acontece sempre

que o sol se esconde.


Nos anos nas costas

o espírito aos poucos se materializa.

Também tem as pessoas, que precisam de ajuda, todos os dias

tem um termo específico para isso.

No ventre da casa

os corpos se esbarram

sem se ver

acontece.


Agora

no quadro na parede

a imagem da fazenda

e todos os animais cercados, esperando.

no canto da casa

um pôster na parede

também já fomos jovens e insistimos em viver.


primeira parte do todo