terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

 A Temperança passando um café

o meu subterrâneo

a natureza larga das coisas

coloco tudo no bolso da calça e tomo um táxi

como quem carrega a tarde nos braços.

Ouço as crianças e suas certezas de precipícios 

suas verdades muros de papelão

acho o ponto exato do absurdo

rabisco o futuro na mesa-flor do quintal.

Pago o motorista, aguardo o troco

espero o sopro 

pé de vento.

Deixo a porta aberta porque sempre termino as coisas no meio.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

 O desembarque em Omaha beach

afogo o horizonte

respiro

incorporo o movimento

ouço o mar

nos olhos do soldado caído.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

 Dissolvo a máquina no seu ventre

discuto com as linguagens curvas

rabisco o erro.

Transformo a energia dissipada em átomos de sonho

escrevo o universo em poucas linhas e sem pontuação

me reconheço

no meio 

de tantos outros

e navego nesse lindo desespero.

sábado, 9 de janeiro de 2021

Toco com os lábios as entranhas dos verbos que despencam. 

é o fim

da tarde

e a noite

engole os homens.

Pane seca, os corpos caem, um por um.

O luminoso da lanchonete amortece a melancolia

consumo.

Acontece sempre.

 dos ruídos 

 das sombras

  dos ventos que voamos

selvagem me deito no furacão.

Respiro o tumulto 

arrasto no asfalto as ideias

escombro as palavras sonho

perfuro as imagens e penduro no varal

deixo secar e recolho no pôr do sol.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

 Bem longe, na canção que morreu. 

Deito onda na pedra,

esculpo ali

com o peso do meu ar

um corpo qualquer de monumento dos fatos,

monumento dos verbos escorridos pelas calhas dessa chuva 

Um monumento não erguido, porém imerso.

Elegia ao subterrâneo que sustenta todas as cruzes da superfície.

Bem longe, na estação AM no vagão de trem, ouço tudo.

Deito trilho na terra,

e ergo ali outro monumento imerso.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

CrÔnIcA

 Ao mesmo tempo caminho dentro de uma crônica do suplemento do jornal de bairro, divago no cinza sujo da folha áspera de gramatura mais leve que esse ar carregado da Barão do Bom Retiro duas e vinte da tarde.

Desço um refrigerante pela garganta na cantina italiana de comida congelada onde eles colocam azeitona em tudo que podem tocar. Me preparo para seguir pela sombra que mesmo que pouca ainda sim é sombra, por onde estão meus iguais de tênis sujos e camisas suadas contando o dinheiro da passagem. Lembrei então do meteoro que vi em outubro, parece que foi ontem

Na janela do ônibus a vida é bela

Ciferal

Ciferal

Padron Cidade II

Ciferal

De Ramos para o mundo

Já estamos na Praça da Bandeira onde se perde um pouco de fé todos os dias, aqui os carros são criados sem cercas, já na uruguaiana fico livre para profanar os costumes sadios que tento manter nas segundas-feiras. Arremesso alguns olhares no horizonte de cabeças e vejo um conhecido na outra calçada mas consigo despistar o acaso.

Não sabia dessa pandemia, se soubesse me esbaldava nos cafés e comia duas Madrileñas na Manon perdia um dia ou dois nos sebos da Tiradentes, descia a Rio Branco e subia pelo Arco do Teles, Praça XV, CEP: 20010-010.

Ao mesmo tempo, mesmo.


primeira parte do todo