quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

 Carregam os corpos pelos apartamentos pintados de branco com venezianas nas janelas, em Marte continua tudo calmo diz o noticiário. Os hábitos continuam a carregar os velhos homens ao salão da barbearia nas margens do bairro, acontece assim, um começa e outro termina, a conversa.

Tem ainda quem prefira ler os jornais na parte de fora da banca, enquanto toma um café ou fuma um cigarro, o sofá foi vendido, dois anos na entrada da loja.

Marte até parece um deserto, submerso em um mar sem água, procuram vida por lá, por aqui ainda tem fila para receber uma cesta básica que seja, para matar um fome qualquer.

Os apartamentos continuam anunciados, todos pintados, tinta acrílica fosca, até tentam ter bom gosto, mas essas venezianas verdes...

No salão do barbeiro, tem jornais no couro da poltrona de quem espera vagar a navalha, tem espelhos e um piso frio impecável. 

Acontece sempre assim, de repente você está dirigindo em uma tempestade ouvindo uma música no rádio e isso já basta.

Os corpos sempre carregados, as paredes pintadas e os sofás vendidos. de repente um mergulho em Marte e tudo basta.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

 Na noite, recuso a madrugada

rastejo pelas horas ainda mortas,

um corpo no chão

em volta os poucos pedestres admiram a morte

no sábado de carnaval.

Os ônibus fazem a homilia com seus motores em alta rotação

410, 464, 409, 433, todos eles passam

o corpo fica, passo também

admirado.

Alguém se encerrou ali

fim da história.

Os bombeiros tratam da burocracia e de afastar os curiosos,

o tráfego chega a quase ficar lento

o corpo agora é monumento

representando a fluidez da vida. 

Quase esquina com a Rua Mem de Sá, acabou-se tudo

antes tivesse recebido um derradeiro beijo no asfalto,

mas só lhe coube o cobertor prateado do IML.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Operações

 Divido a casa

todos os cantos no quintal

penduro a foto do Ace Frehley

vejo os homens saltarem dos edifícios

todos os dias.

Somo os números

conto os tijolos que fabrico

limpo os pés com as solas das mãos

apago a memória dos passos

todas as horas.

Multiplico as tardes de fim

lá fora, chovem estátuas

lapido os diamantes enterrados no peito

monumento ao vento.

Subtraio a palavra da paisagem

a paisagem da pedra

assoprando os metais e seus viadutos erguidos 

miragem. 


domingo, 14 de fevereiro de 2021

O último reduto de Aquiles

 Espremo a pasta de dente

acelero a motocicleta

cento e vinte e cinco cilindradas.

A vida me deu dois prazeres

espremo a pasta de dente

acelero a motocicleta

cento e vinte e cinco cilindradas.

também tem o café que bebo e isso também é remédio.

Também tem as pessoas que ignoro ou penso um dia poder ignorar

enquanto isso vou espremendo a pasta de dente e acelerando a motocicleta

cento e vinte e cinco cilindradas.

É tanta 

mas mesmo assim

ainda é pouca.


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Letra de mÚSICA

 Eles dropam um AI-5 na esquina,  um opioide para lembrar de esquecer,

 o pilot pela cabeça desenha o ar na nuca

 os passos pelas partes tardes demais para lembrar de esquecer

febre dos invisíveis 

 um furacão no esterno logo acima da poesia

Respiro com ajuda dos advérbios

modo, intensidade, lugar, tempo, negação, afirmação, dúvida.

Eles dropam outro e mais outro, 

saboto 

tudo 

pelo prazer da margem

do divino e maravilhoso.

 A sós 

ou juntos

somos nós.

Me encontro

desarmado na trincheira

com uma pedra na mão.

Anoto os sonhos seguidos, foram três, sem discos voadores só o sobrenatural da vida e a fome de manhã.

Confio no progresso e isso me assusta, ainda  assim busco poética no rosto sujo da noite.

Parto

a sós

ou juntos

somos nós.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

 A Temperança passando um café

o meu subterrâneo

a natureza larga das coisas

coloco tudo no bolso da calça e tomo um táxi

como quem carrega a tarde nos braços.

Ouço as crianças e suas certezas de precipícios 

suas verdades muros de papelão

acho o ponto exato do absurdo

rabisco o futuro na mesa-flor do quintal.

Pago o motorista, aguardo o troco

espero o sopro 

pé de vento.

Deixo a porta aberta porque sempre termino as coisas no meio.

primeira parte do todo