sexta-feira, 21 de agosto de 2020

under a blood red sky

 Alguma coisa

under a blood red sky

o gosto na boca do estômago

sal grosso do tempo

as paredes rompem com todas as convenções

estamos livres

enquanto sonhamos.

estamos também calados

quando treme o chão.


quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Relógio

 distante, mordo os dentes

seguro os segundos como se fossem dias e espremo entre os dedos

cai a gota

do instante.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

ou a caminhada

De todos os fogos
chama 
inventa aqui 
um oco.

Linguagem pelo corpo
que falo
vejo canto
um sopro.

Vou ver o meteoro
não vi
só vi tudo
que nunca está.

Onde o sufoco aperta
no passeio público
caminho por dentro dos sinais
fechados.

De todos os corpos
linguagem do fogo
o sufoco e o meteoro que atravesso.


quarta-feira, 8 de julho de 2020

Rua Desembargador Isidro, 156

o carro hesitante no mapa

aceita a corrida, mas permanece parado

um, dois minutos

ele vem.


Entro no Uber
Genilson
Ford Ka branco
Disse que tá foda
Não sabe se vai aguentar
Baixou a cabeça no volante e chorou
Praça da cruz vermelha
Agora fica repetindo que vai desistir

rua frei caneca 54

fecho a porta com uma ponta de lança no coração.

e sendo a vida

obra tão frágil

merecedora de qualquer gota de beleza,

escrevo poesia

no meu peito

para disfarçar essa tristeza.


Apenas um

Os sons tilintando

quase verbos

mas com traços estáticos

que apenas vibram

discretamente.



na entropia

entorpeço

peço uma coca-cola

eu tomo

anoiteço.



os números romanos

o iogurte grego

o céu é para todos

somos isso.


somos

trem.

subúrbio em marcha

com sangue no olho

e loção pós-barba.


lembrança que não desce

marujos observando a tempestade chegar

na calmaria.


Divido o bolo de laranja

reparto

cada fatia, um monumento erguido

no altar do seu prato

o sacrifício do fubá

consumamos os fatos.


As roupas se jogam do varal

no vento quente de abril

que arremessa os pensamentos contra os muros

de sonho.



terça-feira, 23 de junho de 2020

0.9

               I

A mecânica dos solos
desce a coca-cola pela garganta
esôfago
rins
o desespero do final do expediente
a pureza do iludido.
tudo isso escorre,
e apodrece como as bananas na noite.
Ao mesmo tempo, o gelo derrete no copo
derreto minhas felicidades clandestinas
afogadas no amarelo da luz do poste
que ainda não desabou.

22 de dezembro
o oco no passadiço
suspenso
sobre o fogo da cidade
duas pontas soltas
que me desabam.

       II

Estanca 
o paraíso nos seus ombros
nômades
traduzo
trago a ferramenta 
que desmonta a engrenagem
que martela os dias
pregando verbos no passado.

O torpor da rua vazia
encontro abrigo
na realidade da padaria
que multiplica os pães
como o diabo.

     III

Narizes respiram o chumbo 
e tudo mais.
São feras soltas na praça
que mantêm a paz.
Encontro um amigo antigo
do tempo confuso de sempre
conversamos
convergimos
em balelas
e restos
19:00 tocam as sirenes
as feras são soltas
corremos para casa
e assistimos o fim do mundo no jornal.
pelas ruas os homens erguem monumentos para poderem esquecer. 

cotidiano

pela noite febril
te confundi com um desconhecido
e aflito
insisti em não lhe ver
pedi meu prato para viagem
para evitar o desprazer
desse possível desencontro.

anotado numa página do caderno de bolso
Jean Cocteau  "Potomak"
Erik Satie "Armadilha da Medusa"

Tiny dancer
Perfect stranger

No sangue envolto da camada pele
jorram os códigos
que busco enigmar
e assim passar imune 
pela rua da casa da minha avó.

"Apague as pegadas" Bertolt Brecht

A moça distribui sabonetes no metrô
não sabe que faz parte de uma profecia.
um corpo,
um suspiro no vagão
uma história amarga
um gemido
que transforma tudo
em invisível.

O homem observa o carrossel na chuva e rabisca num papel: "Está tudo bem"

Samuel saiu cedo, junto com os caminhões de carga, na primeira esquina soltou um suspiro encorajador, rompia o céu de janeiro na manhã já catastrófica de verão. No ponto de ônibus 4 ou 5 mesmos e mesmas honravam seus compromissos, chegou o 329 apitando os freios e espantando a distopia da manhã. Pela janela Samuel recebia o mundo e trocava carícias com seus sonhos.

O vento no plexo, as pequenas perdas no quintal, falhas de alívio fazem despencar todo o entusiasmo do 6 de paus. Meninos andam de skate enquanto o sol amarela tudo que toca, as vassouras ficam todas de pé.

primeira parte do todo