quarta-feira, 25 de novembro de 2020

 Falo também do fracasso, principalmente do fracasso, dos corpos mal acabados passeando por bares, dos botes navegando na Baía de Guanabara buscando um mar que não existe, o fracasso vitorioso de não pertencer, o fracasso vitorioso de não ter poder de voto na reunião do condomínio, de pedir desconto no pagamento á vista, de poder estar dentro olhando de fora, rindo e chorando. 

Falo do fracasso dos corpos mal acabados estirados pelos bares, dos pequenos botes à deriva na Baía de Guanabara remando para sair da margem, passando por cima da ponte eu vejo, pelo banco do carona a gaivota. A motocicleta enguiçada, o caminhão rebocado, pela pista da direita vejo o bote solitário no imenso maior que qualquer possibilidade.

A margem pela margem, que acontece pelos cantos e belisca o pão com mordidas invisíveis que faz corpo presente nas filas por filas e por horas que não contam nos relógios ajustados. Esse fracasso sutil que mastiga o sorriso antes de cuspir atrás da cortina.

terça-feira, 24 de novembro de 2020

 Todos os corpos que carrego nas frases que deixo soltas por aí, num guichê de mercado ou numa mensagem trocada sem ânimo mas com afeto, todos os Nãos afundados em cada sim que soletro na cabeça antes de pronunciar e tudo bem respondo sem parar nas prateleiras da sociedade.

É tudo banal, mas também existe beleza no ordinário, no chiclete já mascado no canto da boca, por isso carrego esses corpos livres nas minhas frases soltas, assim depois que invadem os ouvidos corriqueiros e martelos e tímpanos ficam rendidos com esses intrusos que pela fresta do "bom dia" tornam o oco vazio em espaço imaginado, os corpos removem a massa cinzenta numa panificação de puro pensar.

São esses mesmos corpos que busco também nos olhares trocados e nos gestos contidos, até mesmo a cidade fala, canta, no apito do trem ligeiro e nas freadas bruscas, nos cavalos de aço rosnando pela madrugada, vejo ali tantos corpos não ditos, tantos gestos trocados em um único adeus.

domingo, 15 de novembro de 2020

 Atiro os dias no bolso da calça

e percorro os endereços.

Numa nuvem vi um desenho teu

um traço esfumaçado com a ponta dos dedos.

Tudo mergulha no olhos que imaginam

tantas presenças construindo esse vazio emoldurado,

me pergunto se as pessoas tem medo de morrer ou de viver?

essa indagação pode ter destruído o poema mas a arte de tomar decisões erradas agrega valor ao livre arbítrio. 

Arremesso alguns minutos para escolher entre o percurso e o descanso. Descanso.

A primeira coisa que perdi na pandemia foi um lápis atrás da cama

onde o braço não alcança, depois perdi um pouco do brilho, ganhei uns quilos e uns sonhos, perdi o medo e o ar, reflito olhando a sacada do prédio vizinho.

Recorto a cascavel na capa da revista e colo no jornal de pedaços do mundo que carrego junto com meu álbum de fotos. Meu mapa astral não vai nada bem, consulto o horóscopo chinês onde sou regido por mercúrio e meu dia de sorte é quinta-feira.

Agora sim, vou tirando do bolso os dias, um por um, e entre os dedos esmago as horas e deixo os instantes escorrerem pelas mãos.

sábado, 7 de novembro de 2020

A calma

 Uma maçã.

Palavra absorvida,

derrete por dentro da gente,

fazer poesia

é tomar coca-cola no gargalo.

É o sabor do trago do alcatrão

saciando a alma e matando o corpo.

Pelas ruas se debatem política e os preços dos automóveis, pessoas aguardam os parentes na rodoviária. A vida amansa os mais raivosos com pequenas pancadas no osso da nuca perto do sentimento torto colado no cerebelo.

Assim caminha.

Ainda sentimos fome e mesmo assim nos sentimos satisfeitos

com pouco.

Na janela desse apartamento aos poucos nos entortamos para caber, mesmo os mais raivosos fraquejam diante de tanta impossibilidade nos papéis assinados que chegam pelo correio.


Pedem calma.

Eles pedem calma.

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

 Futuro e os olhos fixos no terraço

espia, espia só

daí acontece

qualquer coisa, todos os dias

tem uma palavra em Tupi para isso.

No oco da casa

os pés descansam

acontece sempre

que o sol se esconde.


Nos anos nas costas

o espírito aos poucos se materializa.

Também tem as pessoas, que precisam de ajuda, todos os dias

tem um termo específico para isso.

No ventre da casa

os corpos se esbarram

sem se ver

acontece.


Agora

no quadro na parede

a imagem da fazenda

e todos os animais cercados, esperando.

no canto da casa

um pôster na parede

também já fomos jovens e insistimos em viver.


sábado, 10 de outubro de 2020

outro céu

 Testando o céu

vendo a dança dos golfinhos 

aqui

onde

o sol

respira.

Escrevi um romance em 2 horas na minha cabeça

chamei de Best-seller e guardei na gaveta

fui comprar pão

afinal ainda existe a fome

todos os dias ela existe

como os próprios dias existem.

coloco um som no headphone,

como o pão

mato a fome

recuso a vida

sem vida.

vejo um pedaço da calçada da minha janela

de vez em quando alguém passa

é maravilhoso.

céu de outubro

 o céu de outubro e todas as roupas jogadas nos cantos onde o amor acaba

o vento que traz

tudo 

em objetos

de todos os tipos

plástico e vertigem

acompanho o vendaval e as plantas

na sacada.

balé das substâncias

que ocultam as cidades

o mistério do solo.

Ainda penso

no remendo da mochila e nos restos de afazeres

que as pessoas vivem tendo por aí

como se fosse prático viver.

Como se não fóssemos a base de qualquer um desses estereótipos rejeitados.

aguardo o tombo

com o peso da incerteza

no bolso vazio.

Em 26 minutos

coisas acontecem

eu consigo almoçar

e partir uma abóbora em dois

com uma faca cega.

desenho no verso do cartão de visitas

que tudo que importa é o sonho na palma da mão

compro um skate novo

ainda posso 

ver um musical na sessão da tarde

e ligar para um amigo e não falar nada.

acumulo diários vazios e frases incompletas.

termino

o desenho

no cartão de visitas

construo uma linda narrativa

no edifício que desaba.

agora passa a bailarina de fumaça

e desintegra a realidade em um plie mal acabado.

Ainda ontem vi o cometa despencando em direção ao Andaraí.




primeira parte do todo